Arquivo para Fevereiro, 2008

O fio que Ele rompeu

Postado em Penso, logo escrevo às Fevereiro 4, 2008 por lucassouza
Foto tirada por Renata, na casa do Dinho, no último dia em que estivemos juntos, em 07 de novembro de 2007.

A gente planejava passar alguns dias em Bonito. Sempre falavamos de Bonito, e dessa vez acreditávamos que seria possível ir alguns dias por lá, nós quatro, para descansarmos, eu, a Renata, o Liver e a Ana Paula. Afinal, seria a quarta vez em menos de um ano que vínhamos para o Mato Grosso do Sul, e não era possível que fossemos passar mais essa vez sem ver aquelas águas. E passamos, ou melhor, estamos passando sem vê-las. E vê-las agora já tornou-se uma coisa estranha, quase incoerente para mim.

Meu estômago embrulha só de pensar, minha cabeça gira e lateja ante à idéia de ir àquele lugar sem nossos amigos. Talvez quem sabe no futuro nós possamos ir a Bonito em memória deles, mas pensar nisso agora é como percorrer no escuro uma estrada sinuosa, é absurdamente sufocante, e é como se tivessem dado um nó exageradamente forte na artéria principal do meu coração.

Eu e Liver nos identificávamos em muitas coisas, mas confesso que de início pensei que não. A primeira impressão que tive dele, apesar de não ter tardado em mudar, foi a de ser alguém que se assemelhava ao tipo que eu mais abominava e, contudo, eram os que mais se aproximavam de mim naquele início de 2007, quando eu já havia decidido distanciar completamente daqueles que pensam levar Deus na barriga, altivos e manipuladores como um Don Corleone da fé, dos que acreditam ouvir a voz de “deus” qual um ruido estranho e desordenado de um estômago atacado de gastrite. O meu grito era e é “deixem-me em paz!”, mas esse grito não servia para o Liver, de forma alguma.

Confesso que ser meu amigo não é das tarefas mais fáceis, e eu ser amigo de alguém é mais difícil ainda. Não por alguma forma obtusa de preciosismo, mas simplesmente porque sou chato. Prematuramente chato e desconfiado.

Mas o Liver conseguiu romper minha couraça.

Sérgio nos apresentou e como falei, de cara não fui muito com ele. Mas bastou-nos um dia juntos, quando fiquei hospedado na casa de seus pais em Rio Brilhante, para que o meu juizo prematuro se tornasse um grande constrangimento ao meu radar anti-demagogos. Afinal o Liver não era nada do que eu pensava, mas era na verdade muito melhor que eu, com muito menos ferimentos de guerra que eu, e mais, muitos mais corajoso e esperançoso que eu.

Nós nos identificamos nos sonhos, que se assemelhavam nas diferenças geográficas e em carácter de função, e eram por demasiado semelhantes no sentimento. Nós nos identificamos numa grande esperança pelo Reino e até mesmo em algumas paixões terrenas, como o fato de torcermos pelo mesmo time ou por gostarmos muito de ler e de tomar um sorvete inconveniente no meio da tarde.

Eu lembro hoje das muitas risadas que demos, ouvindo as histórias que Sérgio nos contava nas viagens curtas que fizemos juntos. Uma para Dourados, outra para Campo Grande. Lembro também da nossa despedida em Rio Brilhante, quando ele me deu de presente uma camiseta oficial do São Paulo, e do ultimo dia que passamos juntos, em novembro, aqui na mesma casa onde estou, olhando para a mesma piscina onde nadamos e jogamos volei, e onde esperamos agora angustiados por seu enterro que será amanhã.

Ainda havia esperança que ele se recuperasse do acidente de carro. Todas as notícias que recebi eram otimistas, falando da sua reação forte, até que ontem fomos abalados pela notícia de uma parada-cardíaca inesperada que havia piorado o quadro todo, e depois pela ultima notícia que recebemos hoje após o almoço, a de que ele havia falecido na madrugada desse dia 03 de Fevereiro.

A minha primeira questão é, de que serve o otimismo diante da vontade de Deus? E o que pensar? E o que sentir? Afinal ainda estávamos todos abalados pela morte de Ana Paula, sua esposa, que havia sido enterrada domingo passado, vítima do mesmo acidente, grávida de 3 meses, e que até seu último momento de vida deu suporte ao Liver, enquanto ele estava preso às ferragens no banco da frente e urrava de dor, enquanto ela sentia suas forças indo embora e sua voz silenciando aos poucos por causa dos ferimentos.

O que dizer de Ana Paula, que foi sempre o braço direito de Liver em tudo, e se doava com ele por todas aquelas pessoas que pastoreavam, sendo muitas vezes acordados de madrugada, sem terem sequer tempo para os dois, onde pudessem descansar e renovar as forças? Mas conferências atrás de conferências, inúmeras reuniôes, discipulados, viagens missionárias, eles não pararam até o dia que a Ana descobriu que havia perdido o bebê da primeira tentativa deles, e foi quando então eles viram o quanto precisavam de um tempo de descanso.

Estávamos aqui quando vimos o quanto eles ficaram baqueados com a perda do bebê, o quanto foi sofrido pra eles essa recuperação. Mas passou, como tudo passa, e eles estavam novamente muito felizes porque a Ana Paula estava novamente grávida, e eles estavam se preparando para receber o filho quando tudo aconteceu.

Uma batida de carro inesperada, que lhes tirou a vida.

Eu estou aqui sentindo como o fio da vida é fino, mais fino que uma linha de costurar, que não consegue segurar uma pequena pipa no céu.

Estou aqui sentindo na pele como Deus faz o que quer, e que a vontade dele é tão soberana que sequer necessita de explicações e anúncios, que ela se faz por si só, independente da nossa vontade contra ou a favor.

Estou aqui sentindo que a morte de Liver e Ana Paula mais uma vez joga por terra toda a teologia nojenta dos papas evangélicos, baseada em merecimento e em negociatas com Deus. Eles confundem Deus com a imagem daquele homem vestido de terno branco, com o cabelo cheio de brilhantina, habitante das esquinas e que adora negociar com os homens, sem nunca perder nada. Aquele homem que caiu do céu e anda grande na terra, que engana a muitos com sua aparência divina e seus argumetos maquiados cor-de-anjo.

Estou aqui imaginando o tamanho do sofrimento da família de Liver e Ana Paula, e gostaria de pedir a você que está lendo esse texto que orasse ao Senhor para que Ele envie consolo a todos que sofrem agora com a saudade e a lacuna dos dois.

Agradeço a Deus pela oportunidade de ter conhecido e estado perto de pessoas tão significativas, e desejo que a lembrança boa desses meus amigos me ajude a tornar-me uma pessoa melhor.

Perplexo ante a realidade da dor da vida, que tanto costumo esquecer,

Lucas Souza
03.02.2008