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O crime e o castigo meu, seu e de Raskólnikov

Postado em Literatura às Janeiro 11, 2007 por lucassouza

                 

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Fazia alguns anos que eu tentava ler “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiódor Dostoievski. Só tive a oportunidade de comprá-lo e devorá-lo alguns meses atrás, durante uma conexão no aeroporto de Congonhas, São Paulo. O que escrevo aqui é um pouco do que esse livro, que é considerado um dos maiores clássicos da literatura de todos os tempos, significou para minha vida.
       
Publicado em 1866, narra a história de Rodion Românovitch Raskólnikov, um jovem estudante que comete um assassinato e se vê perseguido por sua incapacidade de continuar sua vida após o delito. Apesar de ser um professor, Raskólnikov vive numa extrema pobreza, e passa seus dias atormentado com a idéia que precisa fazer algo realmente importante para a sociedade. Diante disso, cria uma teoria em que separa os homens em dois grupos: os ordinários e os extraordinários, numa tentativa (frustrada?) de mostrar como que quebrar as regras e a leis pode servir para o desenvolvimento humano.
         
Foi pensando em fazer algo a favor da sociedade, segundo a sua própria premissa, que o personagem arquitetou, numa constante luta consigo, a morte de uma agiota. Raskólnikov enfim consegue cumprir com o assassinato. Só que, antes de fugir da cena do crime, foi surpreendido pela presença inesperada de Lisavieta, irmã da velha agiota, que chegou de surpresa e foi também assassinada, a contragosto, pelo personagem.
         
Após ter matado as duas mulheres, ele rouba algumas jóias da casa, mas o máximo que consegue fazer é escondê-las sobre uma pedra, já completamente tomado pela culpa.
          
Daí para a frente o romance passa a relatar de uma forma muito detalhista todos os dramas psicológios que sofreu o autor dos homicídios, e toda a consequência dos seus atos. Acontecem diversas histórias paralelas à história do personagem principal, como um romance de sua irmã com um homem rico e as suas relações com a personagem Sônia, outra mulher que vive numa situação muito crítica. Os dois de certa forma enxergam a implícita cumplicidade que há na existência parca de suas vidas.
                         
Mesmo estando desconfiados do envolvimento de Raskólnikov no crime, a polícia terminou por prender um inocente que acabou se intitulando culpado dos assassinatos por uma razão pessoal, e bastante esclarecida no livro. Entretanto, logo o personagem acaba confessando seu crime, devido a grande influência de Sônia em sua vida, que antes disso compartilhou com ele algumas leituras do Novo Testamento.
         
Após toda essa saga, Raskólnikov é preso. Mas, pega uma pena curta, de apenas 8 anos, numa cadeia na Sibéria, devido não possuir antecedentes criminais e estar arrependido. Durante todo o difícil período da prisão, Sônia manteve-se muito presente e ajudou-o em tudo.
         
“Crime e Castigo” é um grande livro, com uma grande história. A forma como Dostoiévski escreve é tão envolvente e pessoal que certas horas eu me sentia como se estivesse vivendo os dramas desse enlouquecido protagonista.
              
Mas o determinante aqui é como esse livro me levou a olhar para este ponto: a forma como nós criamos idéias, pensamentos e filosofias, apenas para justificar nossas más, agoístas e pecaminosas intenções. Como as vezes estamos nos sentido frustrados e sozinhos, e para transpormos o nosso isolamento social simplesmente inventamos um motivo “justo e bom”, até mesmo com fundamentos em certas verdades, apenas no intuito de pularmos o muro que nos separa dos nossos próprios desejos e ficarmos livres para fazer o que ”der na telha”.
                  
É fato que toda transgressão maquinada dentro dos alicerces da razão, e que é finalizada num habitat de insinadade e paixões momentâneas, produzirá a culpa. Num exemplo bem pueril, é como um garoto que queria muito a torta-de-maçã que estava esfriando na janela da casa vizinha. Ele sabe que é errado roubar, mas ele tem fome, e rouba. De certa forma, a fome abençoou o seu roubo, mas não o livrou da gulosa indegestão e nem do pensamento que o atormantará adolescência afora: “minha mãe disse que ladrão vai para o inferno”.
          
Eis, aqui, a culpa. E o que é a culpa? Ela pode ser o sinal de alerta que o levará a enxergar seus erros, como pode ser o mecanismo que fará com que você se afogue num poço de auto-piedade e comiseração. Por mais conhecida que ela seja de todos nós – quem já não se sentiu culpado uma vez na vida? – muitos ainda não sabem o que fazer com ela.
          
Penso que não existem muitas opções para se lidar com a culpa, mas posso listar algumas formas de fazê-lo:
         
1. Você pode usar de algumas “psicologias” modernas.*** Elas vão lhe ajudar a apagar essa mancha da sua consciência. Afinal, você é um ser humano, e não merece sentir-se culpado. Certo? Alguns profissionais vão lhe mostrar como encontrar uma forma de desconstruir a linha que levou você a enxergar-se como um réu digno de punição. Está sendo travada uma grande batalha do pensamento contemporâneo contra esse sentimento. Para o mundo atual, a culpa é a grande culpada.
           
2. Você pode aderir ao Hakuna Matata. Já assistiu ao longa metragem de animação, chamado “O Rei Leão”, de 1994? Lembro como hoje as horas que meus dois irmãos mais novos, e consequentemente eu, gastávamos horas vendo e revendo todos os dias esse desenho. O lema do filme é, “os seus problemas você deve esquecer, isso é viver, é aprender, Hakuna Matata”. Basicamente, a opção 2 é igual a opção um, só que aqui é mais simples. Você simplesmente sublima e pronto, resolvida a questão. Sem culpa, sem dores, uma operação anti-culpa no estilo fast-food.
          
3. Você pode usar a culpa como uma ponte. Ela poderá lhe interligar ao único sentimento que, em Cristo, poderá fazer você consertar os estragos do seu erro: o arrependimento. Ela servirá como um sinal de alerta, da mesmo jeito que uma dor de cabeça diz que existe alguma coisa errada no seu corpo: ela será o latejar da sua consciência. Então, na hora que as mãos calejadas da Sra. Culpa pressionarem o seu peito, você saberá que é hora de parar, dobrar os joelhos, e começar a reconstruir a casa onde habita a paz: a sua alma.
             
No amor daquele que se fez culpado por nós, e jamais se portou como um pobre coitado por causa disso,
         
     
Lucas Souza
    
     
          
*** Realmente acredito que a psicologia justa e/ou atravessada pelo evangelho tem muito a acrescentar a uma pessoa “enferma” de culpa. Ela vai ajudar o indivíduo a focar a culpa no lugar certo, e não simplesmente descartá-la.